Edleuza

Há algum tempo recebi uma mensagem que me chamou a atenção. Não havia o autor das considerações feitas, mas, procurando na internet, é possível encontrar vários sites que discutem a questão.

Canções de ninar no Brasil


♪♫♪ Boi, boi, boi,

Boi da cara preta,
Pega essa menina que tem medo de careta... ♫♪

Por que fazer a criança dormir sob ameaça?! Algo do tipo: "dorme logo, senão o boi vem te pegar!"


Ah, não, passemos a outras canções infantis, pois não é nada agradável ficar ameaçando um inocente toda noite com um temível boi bravo...


Que tal essa:

♪♫♪ Nana neném

que a cuca vem pegar

Papai foi pra roça

mamãe foi trabalhar ♫♪

Caramba!... Que medo! E agora é com um bicho ainda mais assustador! Não é de se admirar que com tanta violência, medo e ameaça incutidos desde a infância, muitos brasileiros tenham hoje uma visão tão distorcida de si mesmos e dos outros.


♪♫♪ Atirei o pau no gato-to-to,

Mas o gato-to-to não morreu-reu-reu

Dona Chica-ca-ca admirou-se-se

Do berro, do berro que o gato deu

- Miaaau! ♫♪

Esse clássico do cancioneiro infantil nada mais é que uma demonstração clara de crueldade e falta de respeito aos animais. Por que atirar um pau (ou qualquer outra coisa) num gato, cachorro, passarinho, criaturas tão indefesas?


♫♫♪ Eu sou pobre, pobre, pobre

de marré, marré, marré

Eu sou pobre, pobre, pobre

de marré de si

Eu sou rica, rica, rica,

de marré, marré, marré

Eu sou rica, rica, rica

de marré de si. ♫♪

Quer uma musiquinha mais eficiente que esta para incutir a autocomiseração, a comparação injusta e a desvalorização do ser em detrimento ao ter? (Isso me fez lembrar de uma propaganda que ficou pouquíssimo tempo no ar - ainda bem!! -, na qual uma criança, segurando seus brinquedos novos, cantarolava debochanco da outra: “♫♪ Eu tenho, você não te-em... ”)


Mais uma:

Vem cá, Bitu! Vem cá, Bitu!
Vem cá, meu bem, vem cá!
Não vou lá! Não vou lá, Não vou lá!
Tenho medo de apanhar. ♫

Quem foi o sádico que criou essa rima? No mínimo ele também espancava o cachorro.


Olha essa:

♪ Marcha soldado, cabeça de papel
Quem não marchar direito
Vai preso pro quartel. ♫

De novo, ameaça: ou obedece, ou obedece!...


Espírito cooperativo:

A canoa virou
Quem deixou ela virar
Foi por causa do (fulano/a)
Que não soube remar

Em vez de incentivar o trabalho em equipe e a compreensão, as crianças brasileiras são ensinadas a dedurar e a condenar seus semelhantes.


Sensibilidade humana:

♫♪ Samba-lelê tá doente

Tá com a cabeça quebrada
Samba-lelê precisava
É de umas boas palmadas

Samba, samba, samba-lelê

Samba, samba, samba-lelê

Samba, samba, samba-lelê

Samba, na barra da saia... ♫♫♪

Humanidade, compaixão e apoio? Nada dissso, exploração, intolerância e violência.


União e harmonia:

♫♫♪ O cravo brigou com a rosa
Debaixo de uma sacada
O cravo saiu ferido
E a rosa despedaçada
O cravo ficou doente
A rosa foi visitar
O cravo teve um desmaio,
A rosa pôs-se a chorar ♪♫♪

Estampado nos noticiários e no rosto das vítimas: a violência doméstica é um dos fatores mais destrutívos da infância e do lar (a criança um dia cresce, sob os modelos que tem).


Visão um pouco diferente da apresentada aqui: Cantigas Infantis e a tradição Cultural


Para saber mais: Cantigas Infantis e a violência

6 Responses
  1. Por outro lado, que pena que nossas crianças substituiram as "quase" inocentes canções infantis populares por porcarias extremamente tóxicas como:

    - "Um tapinha não dói"
    - "Vou te jogar na cama e te dar muita pressão"
    - "Vai descendo na boquinha da garrafa"
    - "Segura o tcham, amarra o tcham, segura o tcham, tcham, tcham..."

    Todas acompanhados de coreografias para lá de sugestivas feitas inclusive por crianças com apenas 4 ou 5 anos de idade com os pais (verdadeiros retardados) aplaudindo e incentivando.

    Ai! Que saudades das cantigas de roda. A gente era feliz e nem sabia...


  2. Edleuza Says:

    Sim, você tem toda razão, Cleiton! O lixo a que as crianças de hoje são expostas é uma coisa absurda e degradante, e vai se estendendo pela adolescência a fora. Na verdade, acho que hoje estamos no outro extremo, o da libertinagem e leviandade, incutidas, não sei se consciente ou não, desde tão cedo no imaginário infantil...

    Será que existe alguma ONG, séria, que vá contra essa maré?


  3. Ebenézer Says:

    Que tal a versão erudita da cantiga "Atirei o pau no Gato"? É assim:

    Arremessei o bastão no felino
    Porém o felino não veio a sucumbir
    Dona Francisca estupefou-se
    Com o aulido que o felino emitiu.


    Gostou?


  4. Edleuza Says:

    KKKKKKKKKKKKKKK Estou rindo até agora! Mais uma vez, você tem um humor sutil - muito bom!!!!


  5. Edleuza Says:

    Correção (só agora percebi):
    "afora" - junto, uma palavra só (não sei se dei espaço sem querer, ou se errei mesmo)


  6. Gil Says:

    Fala sério.. Cresci ouvindo e cantando isso e nunca me impregnou de nada. Pois, afinal de contas, a letra das músicas não são a única fonte de educação na vida de ninguém. Cleiton Heredia, concordo em gênero, número e grau com você. Sem falar que nem querendo conseguimos manter nossas crainaças longe dessas porcarias.


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