Maria E.
Poesia pós-tudo - Augusto de Campos
pluvial / fluvial (1954-1960). In
Viva Vaia (Poesia 1949-1979)
   
Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1979.


A chuva cai 
Cai na vertical a água pluvial... 
Enchendo o rio que flui, flui 
em direção ao mar...

Em palavras bem simples:
pluvial: água de chuva
fluvial: água de rio

Uma curiosidade:
Quem nasce no estado do Rio de Janeiro é fluminense, que vem do latim flumine (=rio) mais o sufixo - ense (=natural). É por isso que água de rio é água fluvial. O adjetivo fluvial refere-se a rio. Um fluviômetro, por exemplo, é o instrumento que mede a altura das enchentes dos rios. Navegação fluvial é navegação em rios. (Disponível em: http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/).

Existem pessoas cuja profundidade do conhecimento nos inspira e a generosidade da alma nos encanta!... (Ao Ernani Terra, uma dessas pessoas lindas que a vida nos dá!) 




Maria E.
SILVESTRE E O IDIOMA

Silvestre quer saber
porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.
Não é a pessoa que escolhe a palavra.
É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.
Mas não.
O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.
É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem cabimento
em nenhum idioma.
Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebatizara, vezes sem fim.
Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.

Mia Couto
In 'Idades Cidades Divindades'
Maria E.


Esta semana estava eu em casa com meu pequeno, ativo e tagarela Dudu, com seus mil movimentos pra lá e pra cá, na mais pura e típica curiosidade dos seis anos de vida - "seis anos e meio", como ele mesmo faz questão de afirmar.

Começa então a brincar no quarto, com as portas de correr do guarda-roupa, como se fosse um grande trem levando passageiros, quando, de repente, para e diz com ênfase:

- Nossa, mamãe, você "viu" esse cheiro?!

- Que cheiro? perguntei, sem sentir nada.

Ele olha para dentro do armário, põe as mãozinhas numa blusa dobrada e diz:

- O cheiro da sua blusa, de quando você vai me buscar na escola.

Nossa!... É nesse momento que o mundo para por um segundo e traz consigo aquela sensação de que tudo tem valido a pena. Cada sufoco, cada esforço para estar o mais próxima possível, mesmo dentro de uma rotina corrida e desgastante da cidade grande. Cada correr contra o relógio para conseguir buscá-lo a tempo, cada abraço, atenção, cada resposta às suas muitas perguntas (e a confirmação dessas mesmas respostas), tudo passa a fazer sentido.

O amor dá frutos e retorna ao lugar de onde partiu... No momento em que menos se espera ele aparece no cheiro de uma blusa, numa flor minúscula que foi colhida só para você, ou na forma mais inusitada (e tocante) possível.











Maria E.

"Nossa, mamãe, você está linda!!"
(o cabelo apenas preso com grampos)

"Posso fazer carinho em você?"
(já com as mãozinhas em suas costas)

"Acho que o carro caiu porque essa descida é muito íngreme!"
(quando a linguagem oral surpreende e você tem a certeza, a alegria, de que seu acompanhamento está dando certo)

"Meu Deus, mamãe, você está linda demais!!"
(um pouquinho só de maquiagem no rosto, nada mais)

"Você investiu nas gordurinhas, hein?..."
(passando a mão na sua barriga, com a carinha mais sapeca do mundo!)

"Por que você já vai embora? Eu vou sentir saudades, você está ficando muito tempo longe de mim, o papai fica mais."
(quando você faz de tudo para a separação não afetar o coraçãozinho de seu filho de seis anos, mas tem a sensação de que jamais fará o suficiente)












Maria E.

Há pessoas que enfrentam sem medo
chuva intensa em noite escura
trânsito em cidade grande
estado civil sem status
ficar fora do padrão
aluguel, conta, fatura
turbulência em avião

Tem gente que tira de letra

pé sem meia em noite fria
rato, sapo, barata
conversar com gente estranha
aniversário sem festa, sem nada...
dirigir sozinha de madrugada

Existem aquelas que não se assustam mesmo

com fogos, cirurgia, curativo, injeção
plateia, palco, palestra
encenar, falar em público
multidão

Mas, às vezes,

o tato perde a certeza
o corpo esquece a calma
o abismo se lança inteiro
pesado, profundo
contra o peito
contra a alma
quando se tem que enfrentar sentimentos.
Há de se ter muita, muita CORAGEM
para ensinar um coração que ainda não aprendeu
a conviver com o intangível.

2019 promete!











Maria E.

Maria E.

Maria E.

Inspiração

O livro do Eclesiastes adverte: “Um último aviso: escrever livros e mais livros não tem limite. E o muito estudo é enfado da carne...”. Não obedeci. Escrevi muitos livros. É o jeito que tenho de brincar. Livros são brinquedos para o pensamento. De todos os que escrevi, acho que o que mais amo é A menina e o pássaro encantado. Escrevi para transformar uma dor em beleza. Eu ia me ausentar do Brasil por um período longo e a minha filha de quatro anos, a Raquel, estava inconsolável. As crianças têm uma sensibilidade especial. Sabem que toda ausência passageira é metáfora de uma ausência definitiva. Ela sofria e eu sofria com o sofrimento dela. Aí, de repente, veio a inspiração. Inspiração é quando a gente não sabe de onde a ideia vem. Na ciência é o contrário: é preciso explicar o caminho que se tomou para chegar à ideia. É esse caminho que tem o nome de método. Seguindo o mesmo caminho, qualquer outro cientista poderá chegar à mesma ideia. Na literatura é o contrário: o escritor não sabe de onde as ideias vêm. Portanto não se pode ensinar o caminho. Veja como Fernando Pessoa descreveu essa experiência: “Às vezes tenho ideias felizes, ideias subitamente felizes... Depois de escrever, leio... Por que escrevi isso? Onde fui buscar isso? De onde me veio isso? Isto é melhor do que eu...”. A ciência é a caça de um pássaro definido de antemão que, depois de apanhado, será preso numa gaiola de palavras. Mas a inspiração não é uma caça. A inspiração chega em momentos raros de distração. Picasso explicou o seu “método”: “Eu não procuro. Eu encontro...”. Ou seja, a inspiração não tem método: o pássaro pousa no nosso ombro, sem que o tivéssemos procurado e apenas nos espantamos de que ele seja assim tão bonito... Foi assim que me apareceu a estória A menina e o pássaro encantado. Nela, uma menina que não suportava a saudade, para impedir que seu pássaro voasse tratou de prendê-lo numa gaiola. Resultado: o pássaro encantado deixou de ser encantado; perdeu as cores e esqueceu o canto. O pássaro só é encantado quando é livre. O sentido original da estória era claro: era uma estória para a minha filha e para mim cujo objetivo era transformar a dor em beleza. Mas aí aconteceu o inesperado: depois de publicado, os leitores passaram a ver sentidos novos que eu não havia visto: o livro começou a ser usado por terapeutas para lidar com casais em que cada um tentava engaiolar o outro. E estavam certos. Foi então que um amigo me disse: “Que linda estória você escreveu sobre Deus!”. Espantei-me. “Sobre Deus? Qual?” “A menina e o pássaro encantado”, ele respondeu. Contestei: “Mas a estória não é sobre Deus...”. Ao que ele me disse: “Pois eu pensei que o pássaro encantado era Deus, que as religiões aprisionam em gaiolas...”. Pode também ser... É impossível engaiolar o sentido.

(ALVES, Rubem. Ostra feliz não faz pérola. São Paulo: Editora Planeta do Brasil, 2008.)


Maria E.

Maria E.




Há algum tempo, um médico e terapeuta dizia em uma de suas palestras que dentre os itens imprescindíveis à felicidade deveria ser incluída a pergunta: "Qual será a próxima festa?". 

Essa provocação ficou ali, num daqueles cantinhos da minha mente, e de vez em quando pisca chamando a atenção de novo. E sabe de uma coisa? A cada dia que passa concordo mais com ele. Os dias vão se atropelando, as responsabilidades aumentando e consumindo nosso tempo, e quando a gente vê... a semana, o mês e até o ano foi embora sem momentos realmente marcantes, sem aquelas "perdas" de tempo tão necessárias, que valem mais do que qualquer outra coisa.

Pegando um gancho nessa tal pergunta de que falava o Doutor, penso que a agenda da nossa vida  deveria ser guiada pelos fins de semana, e não pelos dias comuns. Isso mesmo. Datas. Compromissos. Compromisso com a alegria, com o encontro com a leveza, com o diferente, com o que nos faz bem; encontro com o calor e a energia daqueles lugares e pessoas que dão sabor à vida. 

Da correria da semana, das urgências e pendências, disso já sabemos, e nos esforçamos para realizar o que é necessário da melhor forma possível. Mas os finais de semana, ah, os fins de semana!... Isso é assunto sério. (Já para a agenda!) 

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