Maria E.

Por várias razões, aprendi a dirigir tarde, com trinta e poucos anos, e no lugar mais tranquilo possível para se fazer isso, a capital de São Paulo. Passei por tudo o que normalmente uma pessoa passa no estágio de aprendiz: frio no estômago, medo de bater em outro carro, medo que batessem em mim, sensação de que o carro não caberia de jeito nenhum naquela rua apertada ou entre os carros estacionados... Tive a certeza de que não iria conseguir. Mas consegui.

O segundo estágio, esse, que a gente já tem a carteira na mão, transcorreu com a regularidade do evento: um sufoco! Pesadelo que se repetia à noite como um filme, o carro sem freio e cruzando a avenida; joelhos que não paravam de tremer ao pegar o trânsito tranquilo e calmo do horário de pico. Comecei a ir de madrugada para a escola, só para fugir dos carros e minimizar o medo. Já na volta!... Ai, meu Deus! Foram várias as histórias, mas sem nenhuma tragédia, ainda bem.

Hoje me lembro disso e dou risada sozinha, porque depois que passa, parece muito simples e engraçado!...

Não é curioso como alguns aprendizados na vida, especialmente os emocionais, se parecem com esse, o de dirigir? Há coisas que você quer (ou precisa, ou deve) aprender, e não dá para ser de outro jeito, você tem que ficar DENTRO do carro, tem que sentir na pele a situação. Só assim aprenderá. Simulações não existem nesse caso.
Seria tão mais fácil se a gente pudesse puxar o freio de mão, abrir a porta e sair correndo... Não dá. Sem a vivência, não dá para saber, não dá para amadurecer o tanto que precisa. Jamais aprenderia a enfrentar o medo da dor, o medo de ser. Se descer do carro, você não poderá experimentar a sensação incrível do “consegui!”, do “enfim, agora sei” - e de olhar para trás, depois do processo, do tempo necessário, e sentir-se orgulhosa de si mesma.


Maria E.



Maria E.

Maria E.

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"Há sol lá fora, há tanta coisa... O tempo bonito me lembra que preciso repensar minha vida, meu trabalho para o semestre que vem. O tempo faltante me remete ao inacabado, incompleto, não estou conseguindo nem viver, nem cuidar das minhas relações afetivas. O tempo se dissolve em minhas mãos, enquanto meu filho cresce. O tempo me lembra que não tenho tempo." (Sábado, 20/04/2019, cansada, repensando a vida.)


Maria E.
Maria E.


Em minha casa, lá da infância, sempre fomos “nós” – pela subsistência, pelo trabalho, pelos estudos. Pai operário, mãe, cinco filhos. Todos nós começamos a trabalhar ainda adolescentes e soubemos, desde cedo, que o único caminho para quebrar o ciclo da pobreza seria estudar e estudar e estudar.

Com quase nada de recursos e muitas dificuldades, seguimos. Trabalho e estudo sempre somaram a mesma conta, responsabilidade e persistência eram palavras obrigatórias em nosso vocabulário. Cada um, a seu tempo, foi abrindo as portas que puderam ser abertas. Fizemos graduação e depois pós, mesmo alguns com filhos e trabalhando em tempo integral.

E a vida seguiu seu curso. Hoje, os filhos dos filhos de nossos pais podem vivenciar outra realidade e ter muito do que não tivemos. À segunda geração também foi ensinado o caminho da escola, alguns já se (pós)graduaram e continuam estudando.

Independentemente de tudo, estudar sempre exerceu um fascínio em mim. Vontade de saber sobre tanta coisa, especialmente no que se refere à língua, linguagem, comunicação, comportamento humano. Na verdade, tudo me encanta! Ou melhor, me encantava, até começar a compreender que quem tem a pretensão de saber sobre tudo acaba não sabendo (profundamente) sobre nada.

Sempre que tenho a oportunidade de entrar numa sala de aula para aprender algo, é uma alegria enorme. Volto no tempo. Vem, nesse momento, uma vontade imensa de ter uns trinta anos a menos e muito conhecimento a mais.

Acho admirável quando uma pessoa percebe, bem cedo, o valor que o conhecimento tem e se lança nesse universo com afinco, subindo degrau após degrau, até o nível mais alto do saber. Há os que defendem a ideia de que o aluno vá até certo nível (mestrado, por exemplo), depois dê um tempo da academia, para que possa adquirir um pouco de maturidade, e só depois venha a continuar. Certamente esse ponto de vista tem sua coerência, e respeito, não vou discutir isso aqui. Mas, a meu ver, é nesse “bem cedo” que se tem energia e vitalidade de sobra para encarar os desafios que uma boa formação pressupõe: horas e horas de leitura, pesquisa, aulas, eventos, publicações. É no “bem cedo” que, em condições normais, ainda se pode ser dono do seu tempo e de si - se preciso for, pode virar noite, emendar com o dia, e mais um dia, para dar conta de alguma urgência acadêmica e tudo bem.

Para ser sincera, se pudesse falar para alguém que está começando, eu diria “emende”! Aproveite esse tempo único e especial, mergulhe nos estudos enquanto a vida ainda é (praticamente) só sua. Faça graduação, mestrado, doutorado, pós-doutorado... Siga o fluxo, não pare – é meio alucinante, mas siga. Porque a pausa pode quebrar o ritmo, dentro do depois podem caber muitas coisas, inclusive, exatamente aquela que o impedirá de seguir adiante.

Do lado de cá, em que o “bem cedo” já se desfez há muito tempo e a vida anda meio arbitrária, com responsabilidades e imposições, ainda considero uma dádiva (e uma delícia) estudar.

Maria E.
Uma das melhores coisas da vida. Feliz de quem vive uma relação assim!...

Para que serve uma relação?

Uma relação tem que servir para você se sentir 100% à vontade com outra pessoa, à vontade para concordar com ela e discordar dela, para ter sexo sem não-me-toques ou para cair no sono logo após o jantar, pregado.

Uma relação tem que servir para você ter com quem ir ao cinema de mãos dadas, para ter alguém que instale o som novo enquanto você prepara uma omelete, para ter alguém com quem viajar para um país distante, para ter alguém com quem ficar em silêncio sem que nenhum dos dois se incomode com isso.

Uma relação tem que servir para, às vezes, estimular você a se produzir, e, quase sempre, estimular você a ser do jeito que é, de cara lavada e bonita a seu modo.

Uma relação tem que servir para um e outro se sentirem amparados nas suas inquietações, para ensinar a confiar, a respeitar as diferenças que há entre as pessoas, e deve servir para fazer os dois se divertirem demais, mesmo em casa, principalmente em casa.

Uma relação tem que servir para cobrir as despesas um do outro num momento de aperto, e cobrir as dores um do outro num momento de melancolia, e cobrirem corpo um do outro quando o cobertor cair.

Uma relação tem que servir para um acompanhar o outro ao médico, para um perdoar as fraquezas do outro, para um abrir a garrafa de vinho e para o outro abrir o jogo, e para os dois abrirem-se para o mundo, cientes de que o mundo não se resume aos dois.

Dráuzio Varella
2013
Maria E.
Poesia pós-tudo - Augusto de Campos
pluvial / fluvial (1954-1960). In
Viva Vaia (Poesia 1949-1979)
   
Livraria Duas Cidades, São Paulo, 1979.


A chuva cai 
Cai na vertical a água pluvial... 
Enchendo o rio que flui, flui 
em direção ao mar...

Em palavras bem simples:
pluvial: água de chuva
fluvial: água de rio

Uma curiosidade:
Quem nasce no estado do Rio de Janeiro é fluminense, que vem do latim flumine (=rio) mais o sufixo - ense (=natural). É por isso que água de rio é água fluvial. O adjetivo fluvial refere-se a rio. Um fluviômetro, por exemplo, é o instrumento que mede a altura das enchentes dos rios. Navegação fluvial é navegação em rios. (Disponível em: http://g1.globo.com/educacao/blog/dicas-de-portugues/).

Existem pessoas cuja profundidade do conhecimento nos inspira e a generosidade da alma nos encanta!... (Ao Ernani Terra, uma dessas pessoas lindas que a vida nos dá!) 




Maria E.
SILVESTRE E O IDIOMA

Silvestre quer saber
porque razão eu estrago o português
escrevendo palavras que nem há.
Não é a pessoa que escolhe a palavra.
É o inverso.
Isso eu podia ter respondido.
Mas não.
O tudo que disse foi:
é um crime passional, Silvestre.
É que eu amo tanto a Vida
que ela não tem cabimento
em nenhum idioma.
Silvestre sorriu.
Afinal, também ele já cometera
o idêntico crime:
todas as mulheres que amara
ele as rebatizara, vezes sem fim.
Amor se parece com a Vida:
ambos nascem na sede da palavra,
ambos morrem na palavra bebida.

Mia Couto
In 'Idades Cidades Divindades'
Maria E.


Esta semana estava eu em casa com meu pequeno, ativo e tagarela Dudu, com seus mil movimentos pra lá e pra cá, na mais pura e típica curiosidade dos seis anos de vida - "seis anos e meio", como ele mesmo faz questão de afirmar.

Começa então a brincar no quarto, com as portas de correr do guarda-roupa, como se fosse um grande trem levando passageiros, quando, de repente, para e diz com ênfase:

- Nossa, mamãe, você "viu" esse cheiro?!

- Que cheiro? perguntei, sem sentir nada.

Ele olha para dentro do armário, põe as mãozinhas numa blusa dobrada e diz:

- O cheiro da sua blusa, de quando você vai me buscar na escola.

Nossa!... É nesse momento que o mundo para por um segundo e traz consigo aquela sensação de que tudo tem valido a pena. Cada sufoco, cada esforço para estar o mais próxima possível, mesmo dentro de uma rotina corrida e desgastante da cidade grande. Cada correr contra o relógio para conseguir buscá-lo a tempo, cada abraço, atenção, cada resposta às suas muitas perguntas (e a confirmação dessas mesmas respostas), tudo passa a fazer sentido.

O amor dá frutos e retorna ao lugar de onde partiu... No momento em que menos se espera ele aparece no cheiro de uma blusa, numa flor minúscula que foi colhida só para você, ou na forma mais inusitada (e tocante) possível.











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